Camila Canela
Rio de Janeiro, Brasil, 1990
“Creio que o direito ao sonho, à imaginação, ao ver, à construção de uma subjetividade autônoma são tão raros quanto fundamentais”
Camila Kahhykwyú Canela é uma pessoa indígena em diáspora da etnia Apanjêkra Canela. Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, com especialização em Arte e Educação Contemporânea pela Universidade Federal do Tocantins, a artista começou a expor seus trabalhos em 2020 e desde então expôs em importantes instituições cariocas, como na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em 2023 e 2024, onde era monitora; no Seminário do Programa de Pós-graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da UFF; e no Circuito ArtRio no Solar dos Abacaxis,. Além disso, ela atuou como escritora dos textos curatoriais em duas exposições: “Corpo-território” e exposição “Sororidade” no SESC Niterói/RJ.
Em sua jornada artística, Camila usa variadas linguagens artísticas como videoarte, poesia, muralismo e pintura. Sendo a primeira uma influência do amor de seu pai por filmes e a última, influência de seu avô, o qual pintava e escrevia. A pintura possui grande destaque em seu portfólio, com telas pintadas a óleo e acrílico nas quais a artista faz uso de símbolos que carregam sua tradição e herança indígena, muitas vezes articulados a elementos visuais que remetem ao espaço doméstico e à arquitetura periférica. A pintura “Enquanto minhas raízes ancestrais destroem arquiteturas coloniais”, por exemplo, apresenta uma onça pintada debruçada sobre um sofá entrelaçado por raízes, em uma sala de estar. A onça que domina a tela em tamanho e presença com uma postura firme, representa a defesa do território telúrico, onírico e espiritual. E a sua inscrição em um ambiente doméstico traduz um sentimento de claustrofobia decorrente do fato de ser forçada a se adequar e negar partes importantes de sua identidade indígena.
Pessoas constroem muros, mas eu sou Kahhykwyú, eu sou yunré. (2026). Acrílica e pastel oleoso sobre tela, 140 x 100 cm.
Mapas ancestrais (2026) eEntre tempos e tempos, tempo de colher (2026). Série “Caxêkwyj”. Óleo e pastel oleoso sobre tela, 70 x 50 cm.
Nesse sentido, a recuperação da história de seus parentes informa profundamente a prática de Camila. Em 1913, a etnia Apanjêkra Canela vivenciou um massacre que resultou no deslocamento forçado de sua família para o interior do Maranhão, onde foram coagidos a esconder sua identidade indígena, e posterior mudança para o Rio de Janeiro, once Camila cresceu e iniciou suas práticas e pesquisas artísticas. Nesse sentido, o trabalho da artista carrega um gesto político-educativo que busca revelar episódios de violência apagados pela história colonial, e exige reconhecimento e reparação. Obras como a faixa “É preciso vingá-las” (2022) e “Nosso Marco é Ancestral” (2024) denotam claramente essa dimensão política, a qual, no entanto, estende-se para a produção da artista como um todo. Ao mesmo tempo, a escolha por cores vibrantes inscrevem a dimensão onírica de sua produção e a reafirmam, nas palavras da própria artistas, seu “[...] direito de imaginar. Não aceitar a realidade como ela se impõe.”
A produção de Camila traduz um gesto de “re-existência” decolonial, reafirmando seu direito, e de seu povo, de existir e ser aquilo que a história colonial tentou apagar.
– Verbete por Sara S. Attique Maximo
Seleção de obras
Ropkrorty (2024). Cerâmica, tinta à óleo, folhas de canela colhidas na Aldeia Tekohaw Maraká'nà, pena de arara azul e pena colhida no Museu dos Povos Indígenas.
Enquanto minhas raízes ancestrais destroem arquiteturas coloniais (2024). Acrílica e óleo sobre tela, 48x60 cm.
Nosso Marco é Ancestral (2024). Óleo sobre sobre papel, 300gr, 29,7 x 21cm.
Menos barro para mais tijolos (2023). Óleo e pastel oleoso sobre tela, 1,60 x 2 metros.
Fui para casa e lembrei do que sou feita, Você não tem poder sobre os meus sonhos (2023). Óleo sobre tela, 30 x 44 cm.
É preciso vingá-las (2022). Faixa/instalação (Parque das Ruínas, Rio de Janeiro), 5mx90 cm.