Zé Angel
Holguín, Cuba, 1992
“Não se trata apenas de criar objetos de arte (imagens) para enfeitar ou alimentar o fetiche dos ricos. Trata-se também de atravessar as muralhas que eles impõem, pular os muros e bagunçar tudo de forma sutil”
Zé Angel Pérez (Holguín, 1992) é um artista visual e arte-educador cubano radicado no Rio de Janeiro desde 2022. Formado em pintura pela Academia Profissional de Artes de Cuba (2011), em Comunicação Audiovisual pelo Instituto Superior de Artes de Cuba (2017) e em Direção de Documentário pela Escola Internacional de Cine y TV de Cuba (2022), sua trajetória transita entre as artes visuais e o cinema, em um hibridismo entre linguagens que se manifesta na maneira como suas pinturas reconstroem espaços. Desde sua chegada ao Brasil, desenvolve suas obras no Rio de Janeiro, onde co-fundou a Escola de Artes Visuais RADAR, um espaço independente voltado para a experimentação artística e trocas coletivas.
Zé Angel participou de diversas exposições coletivas, como Natividade (Espaço Calouste Gulbenkian, RJ, 2024) e Paralela 22 (Galpão 808, RJ, 2023), além de sua primeira individual, Odontologia para o Homem Novo (Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, 2023).
Sua produção pictórica parte de imagens documentais, registros fotográficos e memórias fragmentadas. O artista tensiona a relação entre figura e fundo, sobrepondo camadas de cor e desfocando contornos para criar atmosferas que oscilam entre o reconhecimento e o esquecimento, explorando a noção de um "não-lugar" onde história, território e política se entrelaçam. A migração é um eixo central de sua pesquisa, não apenas como vivência pessoal, mas como um fenômeno coletivo inscrito na paisagem e no corpo de quem atravessa fronteiras.
Isolamento VII. Série "Êxodos" (2025). Óleo sobre manta térmica, 50 x 40 cm.
O Sentido de Pintar o que se fica quando todos se vão. Série "Êxodos" (2025). Óleo sobre tela e manta térmica, 80x100cm.O processo poético do artista se desenvolve por meio de séries, nas quais ele explora técnicas pictóricas e de composição específicas, construindo diferentes narrativas visuais. Essas narrativas, no entanto, revelam um interesse recorrente pelos interstícios e pela reorganização, e ressignificação, de símbolos, memórias e desejos. A série Memórias Migrantes, por exemplo, captura um momento de transição, tanto pessoal quanto artística, em que as imagens parecem emergir do esquecimento, dissolvendo-se em composições onde diferentes temporalidades e espaços se encontram. A obra Névoa na Glória (2023), pertencente a essa série, traduz esse estado de indefinição, onde a metáfora da “névoa” evoca o esvanecer da paisagem em símbolos e imagens díspares que remetem à sensação de habitar múltiplas geografias ao mesmo tempo.
Já na série Limbo, o artista investiga um território subjetivo em que identidade e pertencimento se tornam instáveis. A obra Natal Cubano no Rio de Janeiro (2024) exemplifica essa tensão ao justapor referências culturais, geográficas e memórias familiares, tomando a distância entre as cidades de Havana e Rio de Janeiro como ponto de partida para imaginar um espaço liminar onde um reencontro afetivo pode acontecer. Mais recentemente, o artista explora o que ele denomina “paisagens migrantes”, na série “Êxodos”. Nesta série, paisagens aquáticas e o confronto com fenômenos naturais extremos traduzem os desafios, mas também os breves momentos de esperança, das trajetórias de deslocamento.
Ao longo de sua trajetória entre Cuba e Brasil, suas experiências com a documentação visual e sua investigação sobre identidade e memória, Zé Angel construiu uma cartografia simbólica do deslocamento que reverbera o potencial político da arte.
– Verbete por Beatriz Bonuccelli
Seleção de obras
Choque de Forças (2026). Série "Êxodos". Óleo sobre tela e manta térmica.
Fratura I (2026). Série "Êxodos". Óleo sobre tela e manta térmica.
Fratura II (2026). Série "Êxodos". Óleo sobre tela e manta térmica.
A Selva Escura (2024). Série "Êxodos". Óleo sobre tela, 40x30cm.
Natal cubano no Rio de Janeiro (2024). Série "Limbo". Acrílica sobre tela, 80x100cm.
Névoa na Glória (2022). Série "Memórias Migrantes". Acrílica sobre tela, 80x100cm.
Papai na URSS (2022). Série "Odontologia para o Homem Novo". Acrílica sobre tela, 120x100cm.