Allan Rosário

Americana, Brasil, 1995

“minha identidade é o espaço da casa, e é esse corpo deslocado que transita entre esses espaços”

Allan Rosário é um artista visual brasileiro que trabalha com diversos suportes e materialidades. Entre as exposições das quais participou ao longo de suas carreira, destaca-se a individual, resultante de pesquisa de Iniciação Científica, “TEMPO E ESPAÇO: representações do imaginário corpo - casa” (2024), onde abordou o conceito de diáspora e ruína a partir da dimensão do corpo.

Tendo morado a maior parte de sua vida no interior de São Paulo, Allan ingressou, em 2019, no curso de Artes Visuais na Universidade Federal de Uberlândia, onde passou a residir e a se aprofundar em suas práticas artísticas. A mudança de estado e a perda de sua antiga residência despertaram reflexões sobre o conceito de lar, convertido de um espaço de aconchego em uma memória fragmentada. Em “Cartografia do Corpo: Territórios Fragmentados” (2024), cinco gravuras de plantas baixas revelam as transformações do espaço-casa, a ausência de estabilidade na moradia - onde o aconchego e o íntimo encontram refúgio - e registram a memória deste espaço físico, modificado durante sua residência entre 2000 e 2021.

Seu ateliê, em Uberlândia, serve de espaço para suas experimentações em variados suportes – incluindo fotografia, objetos tridimensionais e gravuras. O artista, por meio da produção visual, reflete sobre a experiência de habitar em um “quase exílio”, na qual seu corpo ocupa espaços que ele não consegue identificar como lar. Essa experiência se traduz em um interesse pelo espaço da ruína e da memória como uma busca por um modo de existir entre o “devaneio e o caos”. Nesta perspectiva, sua obra carrega um forte teor autobiográfico, sendo atravessada por relações de gênero, raça, religiosidade, sexualidade e violência no contexto urbano.

IMÓVEL (2022). Série de 3 fotografias digitais, A2 (cada).

O deslocamento geográfico e afetivo que atravessa sua biografia – desde criança viveu em constante trânsito entre a casa de seus pais em Americana, interior de São Paulo, e Planura, em Minas Gerais, onde passava temporadas na casa de seu avô – se traduz nas escolhas dos materiais e nas temáticas de sua produção. O uso de filtros de café, como na obra “Sete dias de uma vida tempo” (2024), carrega consigo o simbolismo da transitoriedade, da memória e do cotidiano, representando o processo de ressignificação dos objetos e dos espaços que marcaram sua trajetória. Em sua produção com fotografia, como visto por exemplo nas obras “Imóvel” (2022) e “Tempo&Espaço” (2024), por outro lado, a exploração das ruínas não apenas preserva a materialidade dos espaços, mas se torna uma metáfora sobre a impermanência e a reconstrução de um corpo não hegemônico inseridos no contexto urbano.

Na produção de Allan, o questionamento sobre espaço, permanência e habitação traduzem a experiência de um corpo preto que passa a ocupar lugares que o excluíam e onde não alcançava visibilidade – como a Universidade e os espaços de arte. Esse gesto de ocupação crítica revela a subjetividade do artista como em um mecanismo de resistência e transformação, ao mesmo tempo em que submete sua identidade a um processo de permanente questionamento.

– Verbete por Ariane H. de Carvalho

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