Espejismo

São Paulo, Brasil, 1998

“Creio que o direito ao sonho, à imaginação, ao ver, à construção de uma subjetividade autônoma são tão raros quanto fundamentais”

Shirley Liset Espejo Aguilar é uma artista visual paulistana de segunda geração de família boliviana. Desde 2020 adota o  nome artístico Espejismo, e hoje trabalha exclusivamente com criação de colagens manuais e gestão e ministração de ações educativas que exploram a linguagem artística da colagem. Formada em Gestão de Turismo em 2019 no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), foi em materiais impressos de turismo que Shirley encontrou a matéria prima para suas primeiras experimentações artísticas. 

Como artista-educadora, integrou a programação da Escola Panapaná (Pinacoteca de São Paulo, 2023) enquanto educadora aymará, além de ter realizado a oficina Colagem para Mãos Livres em diversos espaços culturais, como no Museu da Imigração do Estado de São Paulo, e em escolas públicas, através do projeto o Calle Coimbra – contemplado pelo Programa VAI 1 da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Além disso, suas obras integraram exposições em grandes instituições públicas, como em Rasgo (CCSP – Centro Cultural São Paulo, 2024) ou na 4ª ilustraDELAS (Pátio Metrô São Bento, 2024). 

Através da técnica da fotomontagem, Espejismo busca deslocar imagens de indígenas andinos, confrontando percepções estereotipadas enraizadas no imaginário colonial e construindo imagens mais sensíveis, atentas às nuances políticas, sociais e culturais das vivências desses sujeitos. Suas construções surrealistas atestam o direito ao Bem Viver – conceito andino que refere-se ao Suma Qamaña, expressão aymara que significa vida em plenitude de forma comunitária, equilibrada e relacional, na qual a harmonia com a natureza e a reconstituição da identidade cultural ancestral são essenciais. Nesta perspectiva, Espejismo desloca figuras andinas de representações atreladas ao espaço laboral para composições em harmonia com a natureza – um exemplo disso é a obra não se pode rasgar ou apagar alguém/algo que tem raízes (2023) –, resgatando a relação dos povos originários com a Mãe Terra (Pachamama) e contrapondo-se à exploração do trabalho forçado segundo a lógica (neo)colonial extrativista

Olho para você (2023), Colagem manual (papel), 29,7 x 21 cm.
Mapa de rosto (2023), Colagem manual (papel), 29,7 x 21 cm.

O deslocamento não está presente apenas em sua técnica, mas é um tema transversal de sua vida e obra. Seus pais vieram da Bolívia e Espejo é fruto dessa migração. O destino escolhido por seus pais foi a Vila Maria, bairro conhecido pela concentração de comunidades migrantes ao longo de sua história. A cidade de São Paulo é um tema recorrente em sua produção, como na colagem O lugar (ou não-lugar) do imigrante andino no Brasil (2024), produzida para o Quipus Podcast. Nesta obra, a artista brinca com o mapa de São Paulo impresso em papel vegetal, contrastando os cortes secos da geometria urbana com as fronteiras irregulares de fotografias de pessoas andinas, rasgadas manualmente. Assim, a artista evidencia o deslocamento laboral dessas pessoas para o centro da cidade e, ao mesmo tempo, sua ausência nesses espaços quando não estão trabalhando. Em outra obra (Mapa de rosto, 2023), a artista mescla o rosto de uma criança andina com a cidade de São Paulo, fazendo novamente o uso de bordas irregulares para traduzir a complexa tensão entre reivindicação de pertencimento e dificuldade de identificação, decorrente da ausência de pessoas andinas em espaços culturais onde a artista circulou no contexto paulistano. 

Adicionalmente, o deslocamento aparece em outras obras vinculado às noções de ancestralidade e natureza, como em cuida bien al niño (2020) – na qual a artista sobrepõe, de maneira semelhante, pessoas andinas em situações transitórias e melindrosas à bandeira Whipala, símbolo de identidade e resistência de os povos indígenas dos Andes – e não se pode rasgar ou apagar alguém/algo que tem raízes (2023) – na qual ela mescla a figura de uma chola com a natureza, remontando a interdependência entre os seres humanos e os elementos naturais, própria da cosmovisão de natureza andina

Diante da  opressão imposta pelas narrativas laborais coloniais, Espejismo se propõe a construir  outras possibilidades de representação visual de migrantes andinos, explorando, por meio da colagem, um surrealismo tão delicado quanto poderoso. Sua arte revela a dimensão simultaneamente poética e política do gesto de recortar, e não se limita a denunciar as marcas do (neo)colonialismo, mas nos convida a imaginar novas organizações sensíveis e materiais de mundo, fortalecendo identidades, memórias e afetos.

– Verbete por Maria Paula R. M. de Carvalho

Instagram da artista

Seleção de obras