Herbert de Paz
Santa Tecla, El Salvador, 1991
“Olhar para o passado é um dos motores das minhas pesquisas, porque eu entendo meu trabalho como uma resposta a algumas lacunas, alguns vazios de informações, vazios culturais, vazios religiosos, vazios linguísticos, históricos que a gente, enquanto povos colonizados nesse lugar de colonização é sempre a imposição do cânone europeu”
Herbert De Paz é um artista salvadorenho estabelecido no Brasil desde 2013. Com passagem pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Herbert realizou graduação em Artes Visuais e mestrado em História da Arte pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Atuou em instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e Casa Museu Eva Klabin como arte educador e em oficinas de pintura com o Coletivo Lanchonete Lanchonete. Além disso, suas obras integraram diversas exposições coletivas e individuais, como “La Sangre Nunca Muere” na Galeria Cassia Bomeny (2023), “Ibirapema – pinturas por Herbert De Paz” na Galeria A Gentil Carioca (2021) e "Ainda Viva" na Casa de Cultura do Parque (2024) Está presente também em importantes acervos, como no Instituto de Arte Contemporânea de Miami, Instituto Inhotim e Museu de Arte do Rio (MAR).
O raciocínio de colagem ocupa papel fundamental na prática do artista. Mais do que um aparato técnico, os gestos de cortar, colar, extrair fundo negativo e vazio estruturam sua poética e pesquisa, tecendo respostas às lacunas culturais e linguísticas deixadas pela presença da colonização europeia nas Américas. Em “Iconografia das Sombras” (2021), por exemplo, materiais e documentos etnográficos constituem novas possibilidades de memória visual, questionando acontecimentos descritos sob um cânone europeu em uma espécie de arqueologia de imagem que interroga criticamente suas origens. Esse gesto, ao mesmo tempo, busca modificar as percepções sobre o passado colonial no presente, imaginando um presente alternativo, onde outras possibilidades narrativas para temas históricos possam emergir.
Cabeça de Hun Hunahpu (Expatriado #1) e Máscara Gèlède Yoruba (Expatriado #5) (2023). Série “Expatriados”. Óleo e acrílica sobre tela, 40 x 30cm.
El zanate y yo sabemos que después de todo volveremos a ser tierra (2026). Óleo e acrílica sobre tela, 120 x 90cm.
Esse trabalho imagético se estende para o campo da pintura. Em obras como “Êxodo 20:12”(2023) e “Moctezuma le dijo a Hernán Cortés que se fuera” (2023), são criados arranjos de imagens sobre fundos brancos, delimitando novas noções de espaço para as figuras presentes na composição. Essas figuras, por sua vez, inseridas como recortes, evocam símbolos e imagens presentes nas culturas originárias do continente e afro-diaspóricas, assim como vivências e memórias do artista.
Esse interesse por sobrepor, e questionar, o histórico, o factual e o mitológico, integra um gesto celebratório que, no entanto, não deixa de se atentar às violências sociais e econômicas que inibem a perpetuação das tradições de povos indígenas e africanos. É nesse sentido que na série “Expatriados” o artista retrata diversos artefatos pertencentes a povos indígenas e africanos que foram saqueados pelo colonialismo e hoje se encontram em sites de leilão.
Ao “desenterrar histórias” Herbert De Paz encontra o motor de sua pesquisa e prática – atentando-se aos contrastes entre o que somos, o que tentamos ser e o que somos ensinados a ser –, e centraliza histórias e experiências culturais que foram submetidas ao apagamento sistemático pelo cânone ocidental.
– Verbete por Milena da Cunha S. Cruz
Seleção de obras
Amanhecer em Kuskatan (Vista del Picacho 2) (2026). Óleo e acrílica sobre tela, 120x90cm.
De Regreso a la Raices (2025). Óleo e acrílica sobre tela, 40x40cm.
500 Años de resistencia (2023). Óleo e acrílica sobre tela, 100x75cm.
Cosecha II (2023). Óleo e acrílica sobre tela, 46x76cm.
Êxodo (2023). Óleo e acrílica sobre tela, 150x200cm.
Memórias Póstumas (2020). Colagem sobre alumínio, 160x61cm.