Oriana Pérez
Zúlia, Venezuela, 2000
“Me refiro à colagem como uma espécie de cirurgia da imagem, curando, transformando e criando uma nova narrativa.”
Oriana Pérez é artista imigrante, descendente de gerações migrantes, autodidata, pessoa não binária, vive e trabalha em São Paulo desde 2021. Participou de diversos projetos artísticos, entre os quais se destacam: Exposição Individual ”La cura para el Inmigrante es encontrar nuevos códigos” Temporada de Projetos no Paço das Artes (2026) residência artística em Lisboa no Picoas Projects (2026), residência artística no Memorial da América Latina (2025); exposição coletiva “Abre Alas” (2026) na galeria A Gentil Carioca, com mostras simultâneas realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo; exposição coletiva no Memorial da América Latina (2025).
Sua prática se manifesta em pinturas e colagens que refletem não só a memória de um passado ausente, mas também como corpos em deslocamento constroem novos sentidos de pertencimento, investigando as complexidades do deslocamento forçado e narrativas que tendem ao desaparecimento na diáspora venezuelana, a segunda maior crise de deslocamento do mundo.
As obras de Oriana são um convite à reflexão sobre identidade, memória e a experiência de deslocamento. Sua prática artística, no entanto, não se limita a uma vontade de “busca pelas raízes”, pois elu sempre esteve conectade às culturas tradicionais venezuelanas, mas uma tentativa de construir pontes entre diferentes culturas, sem, no entanto, negligenciar as diversas vivência de liberdade e dor que a posição de estrangeire pode carregar. Tendo trabalhado com variados suportes e técnicas – incluindo pintura, fotografia, cinema, colagem, bordado, costura e instalação, Oriana busca, para cada obra, a materialidade que melhor expresse os significados e emoções que deseja transmitir. A colagem, em particular, é utilizada como uma metáfora para o ato de migrar, ressignificando contextos e significados de imagens deslocadas.
Segundo deslocamento - El Apure y el San Francisco se encuentran através do rio do céu 2025). Óleo, pastel oleoso, pastel seco, renda e tecido de fibra vegetal sobre painel. 98x188cm.
Traje Típico: série Manifestações culturais (2025). Óleo e renda sobre cadeira de madeira.Oriana também se dedicou às danças tradicionais em seu país, no entanto, foi forçade a se afastar dos palcos devido a um diagnóstico de lúpus em 2013. Este fato, somado à crise econômica venezuelana que impossibilitava o acesso a medicamentos, foi determinante para sua migração ao Brasil. A expressão dessa trajetória é um elemento central em sua prática artística, revelando-se na presença, em suas obras, de diversos elementos culturais e vegetais que remetem aos territórios por onde transitou: o uso do milho na culinária de distintos países da América Latina; as vestimentas tradicionais e a vegetação característica dos territórios, como pode ser observado em suas obras “Primeiro deslocamento - Maracucha llanera” (2024) e “que nunca nos olvidemos quienes somos y de dónde venimos” (2022).
Oriana estabelece na arte um refúgio e um meio de acessar tanto memórias afetivas quanto coletivas por meio de suas produções visuais. Na obra “Segundo deslocamento - Los pies con qué camino, entre o São Francisco y El Apure (alpargata e xô boi)” (2023), as alpargatas venezuelanas e o xô boi alagoanos são justapostos com o intuito de instigar o público a se aproximar dessas culturas, refletir sobre suas possíveis sobreposições e combater a xenofobia. Ao mesmo tempo, tal aproximação reverbera a sensação de (não) pertencimento por habitar três geografias distintas – Venezuela, Alagoas e São Paulo –, a qual Oriana descreve como uma das principais dificuldades de residir no sudeste brasileiro, em que é atravessade por diversas leituras simbólico culturais sobre sua identidade.
– Verbete por Ariane H. de Carvalho
Seleção de obras
Primeiro deslocamento – Maracucha llanera (2024). Óleo, pastel oleoso sobre painel de algodão, 98 x 188 cm.
A única casa que temos é a memória, autorretrato (2023). Óleo, colagem, pastel oleoso sobre tecido de algodão, porta retrato, 98 x 188 cm.
A única casa que temos é a memória, autorretrato (2023). Detalhe.
Segundo Deslocamento - Los pies con qué camino, entre o São Francisco y el Apure (alpargata e xô boi) (2023). Óleo e pastel oleoso sobre tecido de algodão, 115 x 72 cm.
Nuestra Identidad Tiene Raíces (2023). Fotografía e colagem manual, 21 x 29,7 cm.
La cura para el inmigrante es encontrar nuevos códigos II (2022). fotografía e colagem manual, 21 x 29,7 cm.
Venezuela habla cantando (2022). Video, 6' 31''.